TRansMutadA a PalAvra
entrE RiMa e CusPe
saliVa DOce
Bárbara Trelha
TRansMutadA a PalAvra
entrE RiMa e CusPe
saliVa DOce
Bárbara Trelha
Rascunhar-me no vão do
entre vida e morte. Sou eu, mesmo após devaneios confusos e coesos. Resolvo rascunhar esse início neste breve ensaio. Este texto inaugura esta página. Este lugar não me soa virtual, embora esteja inscrito no vão digital do mundo. Ele ainda preserva em si a natureza viva da minha escritura.
Meu costume de ler pessoas despeja sobre minhas folhas em branco, uma escrita viva e constante. Leia Mais
Resolvo inaugurar este blog em outubro de 2015. Um planejamento longo até a concretização responsável de um espaço que pretendo adubar com a dedicação que comparo com a de um escultor sobre a matéria bruta. Logo que resolvo escrever meu texto de apresentação, esbarro com esse texto de José Castelo, em que se despede do espaço “Prosa” do segundo caderno do Jornal O Globo. Lendo suas palavras, não tive mais dúvidas sobre a importância de instaurar mais um lugar de “reduto de resistência”.
Hora da despedida
Por: JOSÉ CASTELLO
Publicado em: 12/09/2015 12:00 – Jornal O Globo
“Chegou a hora de me despedir de meus leitores. Não é um momento fácil, nunca é. Mas ele se agrava porque, com o fechamento do “Prosa”, incorporado ao “Segundo Caderno”, desaparece um último posto de resistência na imprensa do sudeste brasileiro. Os suplementos de literatura e pensamento já não existem mais. Um a um, foram condenados e derrotados pela cegueira e pela insensatez dos novos tempos (…).
Nosso mundo se define pelo achatamento e pela degola. No lugar do diálogo, predominam o ódio e o desejo de destruição. No lugar da tolerância, a intolerância e a rispidez, quando não a agressão gratuita. É o mundo em que todos dizem as mesmas coisas, usando quase sempre as mesmas palavras. Um mundo em que a verdade, que todos ostentam, de fato agoniza. Nesse universo, a literatura se impõe como um reduto de resistência. A literatura é o lugar do diálogo, do múltiplo, da diferença. Não é porque gosto de Clarice que devo odiar Rosa. Não é porque amo Pessoa que devo desprezar Drummond. Ao contrário: na literatura (na arte) há lugar para todos.
Nesse mundo de consensos nefastos e de clichês que encobertam a arrogância, nesse mundo de doloroso silêncio que se apresenta como gritaria, a literatura se torna um lugar cada vez mais precioso. Nela ainda é possível divergir. Nela ainda é possível trocar ideias com lealdade e dialogar com franqueza. Sabendo que o diálogo, em vez de sinal de fraqueza, é prova de força. Lá se vai o “Prosa” com tudo o que ele significou de luta e de aposta na criação.
A meus leitores, que me acompanharam lealmente durante mais de oito anos, só posso dizer obrigado. E dizer, ainda, que conservem a coragem porque a pluralidade e a liberdade vencerão o escândalo e a cegueira. Apesar de tudo o que se diz e de tudo o que se destrói, ainda acredito muito no Brasil. É com essa aposta não apenas no futuro, mas sobretudo no presente, que quero me despedir de minha coluna e encerrar esse blog. Aos leitores, fica a certeza de que certamente nos encontraremos em outros lugares. Nem a loucura do nazismo, com suas fogueiras de livros, conseguiu destruir a literatura. Não tenho dúvidas também: nesse mundo de estupidez e insolência, ela não só sobreviverá, como se tornará cada vez mais forte”.
Texto original na íntegra em:
http://blogs.oglobo.globo.com/jose-castello/post/hora-da-despedida.html